Foi em 1993.
Eu queria encontrar uma maneira para retribuir tudo o que havia aprendido ao longo de tantos anos, fosse enquanto ouvinte dos seus comentários na Jovem Pan ou nas avaliações detalhadas dos carros, nos testes que ele escrevia para a Revista Quatro Rodas, que eu lia, relia e guardava.
Então, na época, era possível encontrar os nomes das pessoas nas listas telefônicas, e eu encontrei seu nome: Claudio Carsughi.
Anotei seu endereço e lhe enviei aquilo que eu tinha feito ao longo de toda a pré-temporada da Fórmula 1 daquele ano, no Estoril, em Portugal: um resumo com os tempos de todos os pilotos que treinaram.
As Williams reinavam absolutas com Prost e Hill, enquanto Alesi e Berger na Ferrari sofriam com o motorzão V12, amargando as últimas posições na tabela de tempos. Mas o som dos V12, até hoje, eu não esqueço. Gravei seus acordes em 1992, em Interlagos...
Então, sem internet, munido de uma folha grande de caderno e caneta, anotei os tempos que havia registrado, no levantamento que eu apurara em uma dúzia de jornais.
Além dos tempos dos pilotos, fiz alguns comentários, me arriscando a dar algumas opiniões. Presunção, a minha...
Também o elogiei a respeito de seu trabalho.
Dobrei o papel, coloquei no envelope e selei a carta. Sensação de dever cumprido por esse pouco, quase nada que eu havia feito para alguém a quem eu devia tanto, sem que ele soubesse...
Aí, alguns dias depois, ao entrar na garagem do prédio em que eu morava, o porteiro me entregou um envelope. O remetente era Claudio Carsughi.
Ele me agradecia, não só pelas informações, mas também "às gentis referências a meu trabalho", como escreveu.
Também me presenteou com dois adesivos da Revista Oficina Mecânica, publicação em que estava trabalhando.
Guardo a carta e os adesivos dentro do envelope até hoje, óbvio.
Não foram poucas as vezes em que, nas madrugadas, ouvindo os GPs da Austrália ou do Japão, liguei para a rádio, antes do início das corridas, para lhe fazer alguma pergunta, que ele respondia ao vivo.
Hoje trabalho no mesmo prédio que Claudio Carsughi e o vejo com frequência.
Há alguns dias estive em um evento, a Velocult, em que ele, Emerson Fittipaldi, Reginaldo Leme, Bird Clemente e tantos outros nomes ligados ao automobilismo foram homenageados.
Eu já estava na antessala do cinema onde seria apresentado um documentário quando Carsughi chegou, acompanhado da filha Claudia e da neta Mirella.
Tomei coragem para me aproximar, fazer algumas fotos para a matéria que veiculei no Portal Terceiro Tempo e relembrar a história da carta, para ele, a filha e a neta.
E brinquei com ele, dizendo que às vezes me seguro - quando compartilhamos o mesmo elevador -, para não lhe prestar aquela reverência que Oscar recebeu dos companheiros da seleção de basquete...
Também disse aos três que às vezes volto para a redação e falo aos colegas: "Eu vi o Carsughi!"
Carsughi deu uma boa risada, mas pareceu constrangido, como se não fosse merecedor de homenagem similar.
Era uma noite quente e havia muita gente naquele recinto. Fiquei ensaiando para pegar um copo d´água ou suco para servi-lo, o que sua neta, zelosa, providenciou antes de mim.
Um copo d´água ou suco...
Seria muito pouco perto do que ganhei de Claudio Carsughi desde 1976, ano em que me apaixonei por automobilismo vendo a eletrizante prova final do campeonato em que Hunt sagrou-se campeão, em Fuji, no Japão, ouvindo sua voz marcante e lendo seus textos maravilhosos.
Grazie, signore Carsughi!
Salute!
Água ou suco?
Esta crônica está publicada no livro "Carsughi - Meus 50 Anos de Brasil", obra de autoria de sua filha, Claudia Carsughi.
Claudio com a filha Claudia e a neta Mirella, em 27 de fevereiro de 2012. Foto: Marcos Júnior/Portal TT
A carta de Carsughi, de 1993
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