O México está do lado de Gianni Infantino.
Mas a CONCACAF está contra o Presidente da FIFA.
E essa diferença pode esconder uma das negociações mais interessantes dos bastidores do futebol mundial desde SEMPRE!
A CONCACAF é a confederação que reúne México, Estados Unidos, Canadá, América Central e Caribe.
Foi justamente uma das entidades que passou a questionar duramente a gestão de Infantino depois da crise envolvendo o “falecido” projeto comercial da FFE, a empresa que venderia ativos dos Mundiais FIFA.
E eis que logo o México decidiu seguir outro caminho, indo em direção CONTRÁRIA à decisão da sua confederação continental.
É mais ou menos como se a CONMEBOL anunciasse oficialmente algo em nome de toda a América do Sul, mas o Brasil decidisse fazer o contrário daquilo que a entidade anunciou.
E existe uma razão bem plausível e possível para isso.
É que o futebol mexicano quer voltar a ter uma ligação maior com o futebol sul americano.
Clubes mexicanos já disputaram a Copa Libertadores durante alguns anos. América, Cruz Azul, Chivas e Tigres chegaram a fases decisivas da competição.
Em 2001, o Cruz Azul chegou à final.
Em 2010, o Chivas de Guadalajara também chegou à decisão.
Para a Liga MX, como é chamado o campeonato nacional do México, voltar à Libertadores significaria muito mais do que disputar alguns jogos contra clubes brasileiros e argentinos.
Na verdade, significa poder entrar novamente em um mercado de enorme audiência, jogar contra equipes bem mais qualificadas e ter visibilidade internacional.
Ao invés de jogar contra times fracos de El Salvador, Aruba ou Jamaica, ver clubes mexicanos enfrentando regularmente clubes como Flamengo, Palmeiras, River Plate e Boca Juniors, aumentaria o valor internacional das suas principais equipes e a exposição da marca do futebol do México.
Também existe uma questão financeira.
A Libertadores tem uma estrutura comercial e de premiação muito maior do que as principais competições de clubes da CONCACAF.
Para os clubes mexicanos, poder participar novamente desse mercado significaria mais receitas de televisão, patrocínio, bilheteria e exposição internacional.
E quem é o melhor amigo da FIFA hoje? A CONMEBOL.
E o México, que de bobo não tem nada, sabe que ficar do lado do poder pode ajudar.
E muito!
Existe um caso no futebol mundial que mostra que uma mudança desse tipo não seria nenhuma novidade.
A Austrália deixou oficialmente a Oceania e entrou na Confederação Asiática de Futebol, a AFC, em 1º de janeiro de 2006.
Geograficamente, a Austrália continua sendo um país da Oceania.
No futebol, porém, passou a disputar as eliminatórias para a Copa do Mundo dentro da Ásia.
E o resultado já é bem conhecido.
Desde a mudança para a Ásia, a Austrália se classificar para todas as Copas do Mundo seguintes.
A seleção australiana chegou ao Mundial de 2026 para disputar sua sexta Copa consecutiva.
E a Oceania tem uma situação mais equilibrada entre as seleções do continente, sem a força da Austrália presente.
Não é exatamente a mesma situação do México.
Mas existe uma lógica semelhante.
A Austrália percebeu que, para crescer, precisava jogar em um ambiente de competição diferente daquele que tinha na Oceania.
O México pode estar pensando em algo parecido.
Só que, neste caso, a mudança seria da CONCACAF para a CONMEBOL.
Algo complicado, mas possível. E que os mexicanos querem, há décadas!
E existe ainda a questão da seleção mexicana.
Uma aproximação com a CONMEBOL poderia colocar o México novamente em contato mais frequente com as grandes seleções sul americanas.
E ganhar muito mais dinheiro em direitos de TV.
Jogar em eliminatórias contra o Brasil ou a Argentina, Uruguai e Colômbia seria um sonho para os mexicanos.
Para uma seleção que durante décadas procurou aumentar seu nível internacional, seria uma mudança importante.
E é nesse cenário que aparece Gianni Infantino.
Caso a FIFA aceite ajudar o México a deixar a CONCACAF e entrar na CONMEBOL, em troca, claro, poderia pedir o apoio da Federação Mexicana a Infantino. E isso seria nada mais nada menos que perfeito para ambos os lados.
Hoje, não existe confirmação oficial de que esse acordo tenha sido feito.
Mas esta possibilidade ajuda a explicar uma decisão que, sem esse detalhe, parece difícil de entender.
Por que o México, diante da reação global contra a FIFA, apoiaria Infantino enquanto a própria confederação continental decide enfrentá-lo?
Porque o México pode estar pensando em algo muito maior do que a atual disputa política da FIFA.
Pode estar pensando no futuro dos seus clubes.
E de sua seleção.
E de seus cofres.
E pode estar pensando em mudar de lugar dentro do futebol das Américas.
A mudança, porém, não seria simples.
O México não poderia simplesmente anunciar que deixou a CONCACAF e começar a jogar a Libertadores.
Seria necessária uma negociação política e institucional muito maior.
E é justamente por isso que o apoio a Infantino pode ter tanto valor.
O presidente da FIFA tem influência suficiente para ajudar a abrir essa conversa.
Existe ainda outro detalhe que torna tudo mais interessante.
Victor Montagliani, atual presidente da CONCACAF, aparece entre os nomes que podem entrar na disputa contra Infantino na eleição da FIFA em março de 2027.
Assim, o México está apoiando o homem que pode continuar comandando a FIFA enquanto seu próprio presidente continental aparece como possível adversário dele.
Entendem?
O México, hoje na CONCACAF, presidida por Montagliani, possível candidato forte ao posto de Presidente da FIFA, está se posicionando ao lado do “inimigo” de Montagliani, Gianni Infantino.
Não é uma simples "divergência".
É uma escolha.
Uma aposta arriscada, feita com consciência.
E, para o México, a recompensa possível é enorme: mais Libertadores, mais exposição, mais mercado e uma nova posição no futebol internacional.
Se a promessa atribuída a Infantino realmente existiu, a pergunta deixa de ser porque o México está apoiando o presidente da FIFA.
Passa a ser outra.
Quanto vale, para o futebol mexicano, a possibilidade de trocar a CONCACAF pela CONMEBOL?
FIFA, México e otras 'cositas más'. Por Ricardo Setyon
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