No começo de 1969, quando o Santos se exibiu na África – e causou tamanho estupor que dois conflitos foram paralisados para que o povo pudesse assistir ao então melhor time do mundo –, Pelé vaticinou que um dia o futebol africano seria tão forte e poderia rivalizar com os melhores do planeta. Agora, a Copa está começando a mostrar isso.
Durante muito tempo, salvo exceções, o máximo que um time africano ambicionava em sua estreia no Mundial era perder de pouco. Quem poderia prever o que estamos vendo agora, em que logo na estreia seleções favoritas, como Brasil, Portugal, Espanha, Bélgica e Suíça acabaram empatando com equipes da África?
Isso sem contar as vitórias da Costa do Marfim sobre o Equador e de Gana sobre o Panamá. Enfim, o que esses resultados querem dizer? É prematuro buscar uma resposta para tantos escores surpreendentes, ou há uma nova realidade saltando à vista?
Bem, nunca fui de ficar em cima do muro, nem de comentar após o resultado consumado. Então, vamos lá. A verdade, gritante, é que a técnica individual, a habilidade para dominar a bola, driblar, lançar, enfim, o fundamento do futebol não é mais uma primazia de sul-americanos e europeus.
A ginga que veio dos descendentes de escravos jogadores da capoeira e deu ao futebol brasileiro o drible, o meneio de corpo, o bailado de pés e o jogo de cintura que engana e supera o adversário, que tornou o Uruguai bicampeão olímpico em 1924/28 e concebeu ao Brasil de Garrincha e Pelé a sagrada Jules Rimet, hoje não é mais privilégio de país algum.
Nesta Copa, vimos até japoneses sambando com a bola nos pés no empate com a Holanda, uma equipe duas vezes vice-campeã mundial, enquanto outra bi vice, a República Tcheca, perdia para a Coreia do Sul.
Bem, todas essas surpresas indicam que teremos um campeão inusitado neste Mundial, um país da África, Ásia ou Oriente Médio? Não, não sejamos tão ousados. A tendência é a de que as seleções mais experientes, de melhor currículo e mais alternativas táticas, encontrem maneiras de superar as dificuldades iniciais.
No Brasil, a entrada de Endrick, a recuperação de Neymar e o fortalecimento do meio-campo darão um novo padrão e maior competitividade ao time. Essa melhora também deve ocorrer nas equipes de Espanha, Portugal e Holanda. Deve, mas não é garantido.
A gente fica com a certeza de que a ginga se espalhou pelo mundo quando vê a Turquia, semifinalista da Copa de 2002 (quando só foi eliminada pelo Brasil, por 1 a 0), perder de 2 a 0 para a desacreditada Austrália, sofrendo o primeiro gol de Nestor Irankunda, um garoto negro de 20 anos nascido em um campo de refugiados da Tanzânia.